Nascido e criado em Nova Iguaçu, Nelson Freitas conta sobre sua trajetória como artista, produtor e incentivador de cultura. Para ele, toda pretensão de se fazer cultura deve perpassar a importância da educação como processo de conhecimento, valorização, pertencimento e memória do popular. Ações que tem um fim em si mesmo é apenas um evento, cultura, para Nelson, é o processo de pertencimento e conhecimento das pessoas.
“Não existe legado maior em qualquer esfera do planeta que a produção do conhecimento.”
Nelson Antonio de Freitas começou sua trajetória aos 15 anos fazendo desenhos e logo passou a tocar violão e a fazer shows. O esforço para produzir os próprios shows possibilitou a descoberta da paixão por produzir. Nelson fundou o evento “Quinta 8:30 - Encontro com a música Brasileira” e também o “Som na Praça” onde pode trazer artistas renomados, além de oportunizar aos artistas locais da Baixada Fluminense mostrarem seu trabalho. Ainda atuou como Secretário de Cultura e Turismo em Nova Iguaçu onde realizou, dentre muitos projetos, a inauguração da Casa de Cultura Sylvio Monteiro e a 1ª bienal do livro em Nova Iguaçu, onde passaram mais de 174 mil pessoas em dez dias. Também fundou a empresa Água Grande onde produz eventos, livros, feiras e artistas como Moraes Moreira, onde atua hoje.
Como começou sua carreira?
Na verdade eu não comecei como produtor cultural, eu desenhava figuras abstratas e o namorado da minha irmã viu, gostou e resolveu levar meus desenhos pra uma vizinha ver e essa mulher gostou tanto que me ofereceu uma bolsa para estudar belas artes. Mas, como eu precisaria morar na cidade do Rio de Janeiro, meu pai não deixou e eu não fui. Para compensar a minha não ida pro Rio, minha irmã me deu um violão, conversou com meu pai e em 6 meses eu já estava tocando e compondo. Com 17 anos eu fiz um circuito de shows pela cidade, e nesse âmbito, como eu não tinha produtor, comecei a produzir meus próprios shows, e em 1989 eu resolvi gravar um CD, mas percebi que nenhuma grande empresa iria gravar meu CD por eu não ter articulação com o mercado. Comecei a entender que a minha inserção nesse mercado poderia se passar pela produção. Se eu não conseguiria entrar como artista eu poderia entrar como produtor. Então resolvi produzir um tipo de projeto que fomentasse o tipo de música que eu produzia aqui pra formar plateia. E dessa forma eu comecei a me articular com grandes nomes da arte Brasileira e também com os artistas locais e aí criei o “quinta 8:30, encontro com a música Brasileira” em 1990, onde duas quintas por mês agente fazia um espetáculo com um artista renomado e com um artista local apresentando ao público a produção da sua gente, não pra ele animar o público, não pra ele aquecer o público, mas para ter a oportunidade de mostrar seu trabalho e ser reconhecido por ele. Nesse projeto a minha intenção foi fomentar a produção de plateia, divulgar o meu trabalho, e dessa forma eu estaria me articulando com os grandes nomes do cenário cultural e permitindo que os artistas daqui formassem publico. Rapidamente me articulei com os meios e por fim em 1992 eu empresariei o Boca livre. Mas percebi que não era a minha praia empresariar artistas, mas sim realizar projetos, nessa época eu até recusei empresariar o Luiz Melodia. Depois disso eu fui convidado a realizar o “Som na praça” em Nilópolis que aconteceu de 1994 a 1999, e esse projeto teve um momento que virou tema até de campanha eleitoral. E trouxe nomes como Zé Ramalho e Rita Lee. E em 1998 eu criei a Água grande como necessidade de representar juridicamente os projetos que eu desenvolvia e hoje nós temos sede em Nova Iguaçu e muito material produzido acessível a todos.
Entre os anos de 2003 e 2004 você foi Secretário Municipal de Cultura e Turismo em Nova Iguaçu. Como foi essa época e qual as principais realizações da sua gestão?
Quando assumi a Secretaria eu tive o objetivo de trazer um sentimento de pertencimento ao povo Iguaçuano, dessa forma eu quis que as pessoas começassem a entender o valor de sua terra e de sua gente através do processo de valorização. E como é possível se chegar nesse resultado, de ter um povo que tenha orgulho da sua cidade e do que é produzido aqui? Educando essas pessoas e as fazendo pensar. Por esse motivo eu peitei trazer para Nova Iguaçu a 1ª Bienal do Livro para que as pessoas mostrassem para as autoridades que elas querem educação através de sua representatividade no evento. Muitas pessoas me disseram para desistir, para fazer um show e chamar alguém famoso, mas eu acredito no conhecimento para vida e, felizmente, deu certo, mais de 174 mil pessoas passaram pela Bienal e com isso nós chamamos atenção não só das autoridades como também dos grandes nomes midiáticos. E como parte desse processo de valorização eu queria que as pessoas tivessem um monumento de orgulho para cidade, um lugar onde as pessoas quisessem trazer outras para conhecerem, como aquele lugar imperdível da sua cidade, e aí nós buscamos verbas com o governo e com a iniciativa privada e inauguramos o espaço Sylvio Monteiro onde as pessoas poderiam apreciar a arte local, o teatro local, a apresentações dos músicos locais e ter um acervo bibliotecário como referencia de conhecimento. No curto período em que estive a frente da secretaria tentei deixar um legado de que a construção de conhecimento, fatalmente advindo da união da cultura com a educação, que é de extrema importância para ter um povo que apoie e se orgulhe de sua cidade.
“Se não produzir conhecimento, tô fora!”
Qual o trabalho que Água Grande realiza e quais os objetivos?
Em 1998 eu criei Água Grande, e uma curiosidade desse nome é que ele é a tradução de “iguassú” no tupi e achei que seria interessante. A empresa apoia projetos que perpassem a educação e a cultura como construção de conhecimento. Acredito que se você não produz conhecimento nas pessoas o evento vai ser só mais um evento, o projeto precisa produzir conhecimento para que contribua para a vida das pessoas, e o que contribui permanece na vida para sempre. Já cheguei até a recusar projetos por não produzirem conhecimento. Se não produzir conhecimento, tô fora! O ultimo projeto que nós fizemos foi a jornada de leitura que aconteceu aqui na UNIG onde trouxemos o Ferrera Goulart, e o objetivo desse evento era fazer o professor entender que a arte é a forma de aprendizado que mais dignifica o ser humano e se ele passar de forma criativa o conhecimento o aluno pode vir a tornar-se um grande nome no mundo. Acho que todos os professores deveriam entender isso. Acho que o governo deveria entender isso, a educação e a cultura depende uma da outra e só tem a ganhar uma com a outra. É preciso fazer com que as duas andem juntas, então todo o trabalho que nós fazemos, aqui na Água grande, leva em conta a relevância de trabalhar com cultura e educação vinculadas a construção de identidade.
E para terminar, qual o legado que você pretende deixar pra cultura brasileira?
Não existe legado maior em qualquer esfera do planeta que a produção do conhecimento. E para as pessoas que desejam viver de cultura eu digo que vocês precisam saber que não se faz cultura sem dinheiro, então os que aspiram viver nesse ramo devem aprender a se articularem com todos os meios e mostrar ao governo que o investimento em cultura é um ganho em todos os sentidos para a esfera social. É preciso ser proativo, não esperar acontecer, mas fazer acontecer e ajudar ao Brasil a fomentar uma política cultural que incentive o sentimento de pertencimento. Eu desejo que as pessoas lembrem-se de mim como alguém que apenas deseja que a cidade, em termos de povo, seja representada.


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